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21 janeiro 2009

Aspectos Psiquiátricos da Obesidade

Essa é uma parte de um artigo publicado na Revista da ABESO (Edição nº 12 - Ano IV - Nº 12 - Fev/2003) que apesar de antigo trás colocações muito pertinentes que devem ser observadas tanto por aqueles que sofrem da doença quanto por aqueles que a tratam.

Por: Adriano Segal
Doutor em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo • Fundador e Coordenador do AMBESO (Ambulatório de Obesidade e Co-Morbidez Psiquiátrica do AMBULIM - Instituto de Psiquiatria – Hospital das Clínicas –Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) • Diretor de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da ABESO

A obesidade é uma doença de grande complexidade e de origens multifatoriais. Neste sentido seus trata-mentos devem contemplar estas características, sob pena de serem inefetivos e trazerem elevados e injustificados custos para o paciente e para o sistema de saúde.
Dentre os fatores envolvidos na obesidade, um grupo específico tem destaque, não tanto pelo seu papel etiológico e de prognóstico, mas sim por seu papel histórico. Este é o grupo dos fatores psicológicos e psiquiátricos.
Durante muito tempo, notadamente nas primeiras seis décadas do século passado, entendeu-se a obesidade a um só tempo como resultante de dificuldades ou déficits morais e / ou como resultante de problemas psíquicos.

Assim, o obeso era visto como uma pessoa de baixa auto-estima ( só alguém que se odeia pode ficar assim deformado ), com limitações intelectuais ( deve ser burro... sabe que se comer tanto engorda, mas mesmo assim se entope de comida ), com mau funcionamento mental ( é
muito ansioso: come para descontar a angústia , troca o afeto por comida , em vez de ter uma vida sexual adequada, sublima seus desejos através da comida ), covarde ( se esconde por trás daquela capa de gordura ) e egoísta ( fica deste tamanho para ocupar mais espaço no mundo ).
Este pequeno parágrafo traz embutida uma série de desdobramentos; nenhum deles pode ser considerado bom.
Talvez o principal seja que uma grande parte de profissionais da Saúde ainda pense deste modo francamente inadequado e cientificamente não embasado. Isso faz com que a doença não seja encarada como tal e, portanto, o sucesso terapêutico só esteja presente quando a sorte do paciente for grande.
Mas há outros: gera-se uma avalanche de preconceitos que acabam por penalizar o doente pela sua doença. Não creio que haja necessidade de relembrarmos aqui exemplos da segregação massiva à qual estas pessoas estão sujeitas no seu dia-a-dia, porém nunca é demais repetir que esta segregação existe e é, no mínimo, infundada.
Essas idéias também servem, ainda hoje, para se retardar pesquisas mais adequadas sobre o tema e, em algumas situações, para se evitar que pacientes tenham acesso a tratamentos efetivos (vide adiante em Cirurgia Bariátrica).
Além disso, estas idéias facilitam o aparecimento e a manutenção de um mercado agressivo, antiético e milionário de propostas terapêuticas mágicas e enganosas, trazendo uma grande dificuldade na correta abordagem de uma doença num grupo de pessoas que já fizeram de tudo e não agüentam mais investir tempo, dinheiro e expectativas.
A postura atual é a de que a população geral de obesos não apresenta maiores níveis de psicopatologia, quando comparadas à população geral não obesa.
No entanto, pacientes obesos (ou seja, pessoas obesas que estão em tratamento) apresentam, estes sim, maiores níveis de sintomas depressivos, ansiosos, alimentares e de transtornos de personalidade. Esta presença parece ter uma relação diretamente proporcional ao índice de massa corporal (IMC).
Apesar de parecer algo contraditório com aquilo que foi dito acima, a coerência se dá por três aspectos de elevada relevância:

  • Não há uma conotação etiológica, ou seja, a presença de psicopatologia não é necessária para o aparecimento da obesidade;
  • A presença de psicopatologia não é geral e sim restrita a grupos específicos, tal como acontece em outras doenças crônicas;
  • A obesidade é vista como causadora da psicopatologia e não como conseqüência desta última.

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