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09 dezembro 2008

O avanço da Obesidade

Texto enviado por: Angel´s Nutriclin Service

O mundo, de acordo com o Dr Barry Popkin, professor de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Carolina do Norte nos Estados Unidos. Ele discursou durante o Congresso Mundial de Endocrinologia que ocorreu pela primeira vez no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro de 8 a 12 de novembro passado. De acordo com ele, esse número assustador já ultrapassou há muito tempo os 800 milhões de desnutridos espalhados pelo mundo, fazendo da obesidade uma pandemia, responsável direta ou indiretamente pela maior taxa de mortalidade imposta por qualquer outro fator de risco existente.

Os dados nos alertam para a "migração" da obesidade das zonas urbanas para as rurais, pois o campo já não é mais o mesmo. Mecanizou-se e passou a conviver de perto com os refrigerantes, biscoitos e guloseimas, que conseguem chegar até os mais longínquos rincões. A obesidade "migrou" também dos povos considerados ricos para a população de baixa renda, uma vez que os alimentos mais calóricos e palatáveis são justamente os mais baratos e acessíveis. Não poupa homens, mulheres, crianças ou idosos. Não tem preconceito de cor, raça ou nível intelectual.

A tecnologia também parece jogar contra nós, pois à medida em que evoluímos e compramos um carro, que utilizamos vários tipos de controle remoto, que utilizamos elevadores, escadas rolantes e botões que abrem e fecham os mais variados dispositivos que necessitamos, passamos a queimar muito menos calorias. Assim, o sedentarismo parece ser um fator muito importante no avanço da obesidade.

Apesar de existirem vários fatores aliados ao sedentarismo, determinando o aumento progressivo do peso das pessoas do mundo todo, são os novos hábitos alimentares os grandes vilões. Não há dúvida de que engordamos porque comemos muito mais calorias do que gastamos, muitas vezes, em pequenos volumes de alimentos densamente calóricos, outras vezes, grandes porções de alimentos ditos lights ou diets, que consumidos em grandes volumes têm o mesmo efeito dos anteriores.

Ao avaliar as mudanças alimentares que podem estar relacionadas ao aumento do peso das pessoas o Dr Popkin descreve com grande propriedade algumas delas:

(1) Aumento no consumo de açúcar - nos últimos 30-40 anos, toneladas de açúcar incorporadas a alimentos industrializados, principalmente bebidas como refrigerantes e sucos concentrados, passaram a fazer parte das refeições de adultos e crianças, como se fizessem "realmente parte da refeição". São calorias vazias adicionadas às refeições, tornando-as muito mais calóricas;

(2) Aumento no consumo dos óleos vegetais - o consumo desses óleos triplicou nas últimas décadas, podendo ser citado o caso da China, onde os alimentos fritos assumiram proporções nunca vistas antes nesse país, coincidindo também com as mais altas taxas de crescimento da obesidade e do diabetes em todo o mundo;

(3) Aumento do consumo de laticínios - leites, queijos, requeijões e iogurtes integrais, em vários formas de fabricação, associados a frutas, fibras e diversos sabores de cereais, fazem com que seu consumo exagerado pareça ser saudável e importante à saúde, minimizando o fato de serem altamente calóricos e ricos em gordura saturada;

(4) Aumento no consumo de alimentos processados e carboidratos refinados - com a falta de tempo da vida moderna e com a progressiva profissionalização da mulher, o preparo das refeições passou a ser praticamente impossível nas famílias modernas, fazendo com que elas passem a adotar a aquisição de alimentos processados e prontos para o consumo, na maioria das vezes, muito calóricos e com poder nutricional pouco convincente;

(5) Redução do consumo de frutas e vegetais - essa parece ser a maior perda nutricional observada em nossas mesas, principalmente no Brasil e em países em desenvolvimento, onde a industrialização dos alimentos passou a ser uma realidade irreversível;

(6) Aumento do consumo de lanches - essa forma de se alimentar passou a ser utilizada inicialmente pelos mais jovens e posteriormente por praticamente toda a família, que aboliu o jantar e passou a lanchar e a descrever essa situação como vantajosa do ponto de vista nutricional. Como se o lanche fosse menos "pesado" para se consumir à noite. Isso, entretanto, prejudica a saciedade, fazendo com que as pessoas acabem comendo mais vezes, aumentando muito o volume calórico ingerido nessa refeição;

(7) A consolidação dos supermercados como os locais de compra de alimentos - as famílias passaram a consumir preferencialmente e muitas vezes somente os alimentos industrializados.

O papel da indústria de alimentos e dos governos

Diante de problema de tamanha proporção, a indústria de alimentos e os governos devem desenvolver ações em conjunto, no sentido de produzir alimentos mais saudáveis e de menor custo. As agências reguladoras de alimentos devem se empenhar em exigir rotulações exatas e de linguagem acessível ao público leigo. E finalmente, os governos devem sobretaxar alimentos mais calóricos e subsidiar alimentos mais saudáveis, tornando vantajosa a compra desses, não somente do ponto de vista nutricional, mas também econômico.

Assim, todo e qualquer aumento excessivo no teor de açúcar e gorduras dos alimentos deveria ser tributado e não o contrário, como ocorre na indústria de alimentos. Hoje, um litro de leite desnatado é muito mais caro do que um litro de leite integral. Chega ser ínfimo o preço de um pacote de bolachas recheadas em relação ao preço do pão integral.

De acordo com o Dr Barry Popkin, da mesma forma que os governos têm programas de prevenção de saúde extremamente bem sucedidos como os de uso dos cintos de segurança e de combate ao tabaco, eles também devem olhar com a mesma preocupação para o avanço da obesidade no mundo e lançar programas relacionados à prevenção da mesma. Essa política de prevenção parece ser a única forma eficaz e economicamente viável contra o avanço da obesidade no mundo, uma vez que o tratamento das comorbidades desta doença impõe intoleráveis gastos aos países em desenvolvimento.

Enquanto nosso arsenal terapêutico tem se mostrado tão frágil quanto muitas vezes deletério, precisamos contar com povos esclarecidos e motivados, uma indústria de alimentos engajada no mesmo esforço e governos responsáveis e interessados em declarar guerra contra a doença que vem desafiando pesquisadores e governantes.

Dra. Ellen Simone Paiva
Médica especializada em endocrinologia e nutrologia. Mestre em Medicina na área de nutrição e diabetes pela USP. Titular da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, SBEM e da ABRAN, Associação Brasileira de Nutrologia. Diretora clínica do CITEN - Centro Integrado de Terapia Nutricional.
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