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12 outubro 2008

Postagem coletiva - Dia Nacional de Combate à Obesidade

Por: Conquista

Aderindo à proposta da Denise Carceroni, do blog Fique INforma, participo desta postagem coletiva. Antes, porém, parabenizo a Denise por esta iniciativa tão bacana e a todos os que desejaram e puderam aderir, devido à importância deste assunto.


OBESIDADE. Eita palavrinha feia! Nunca gostei dela. Quando criança, sequer a ouvia no meu dia-a-dia. Sabia, ou melhor, pensava que sabia o que era. Obeso, no meu entender, era aquele que possuía um corpo imenso, muito gordo mesmo, mas por problema de saúde, distúrbios no funcionamento do seu organismo, incontroláveis, que faziam com que a pessoa ficasse assim, tão pesada, tão disforme. Na época, eu a imaginava 'uma coitada'. E acreditava que os gordos por comerem muito, por não terem controle, por não se exercitarem etc. eram diferentes, estes não eram obesos, eram gordos. Mais comumente chamados de "balofos". Quase não ouvia dizer "Fulana é obesa." Mas era comum ouvir " Fulana está balofa".
Lembro que uma vez o meu irmão mais velho, brincando, me chamou de balofa. E, parodiando uma música romântica da época (faz muiiiito tempo, gente boa, podes crer) que dizia "Abraça-me forteeeee" ele cantou, quando eu passei por ele usando um short novo: "A vaca de shorttttttt"...rs Claro que na hora eu fiquei P da vida, aliás na época eu não ficava P da vida ainda, eu não dizia palavrões como digo hoje, eu devo ter ficado irritada, irada, algo assim. Afinal, sou do tempo em que algo 'irado' não era algo 'maneiro' e sim algo que bufafa de raiva...rs

Mas, era pura provocação dele, afinal eu não era balofa, de jeito nenhum. Eu revidava também parodiando a mesma música, no trecho em que falava algo sobre '... coração', cantando para o meu irmão em resposta: "E o boi de calçãooooo". haha Bons tempos. Mas, naturalmente, mesmo sabendo que estava com tudo em cima, eu muitas vezes me olhava no espelho e me achava enorme. Como qualquer adolescente. Já contei neste blog, em diversos posts espalhados por estes mais de 4 anos de postagens, muita coisa de várias épocas da minha vida, no que tem a ver com a questão de corpo, peso, alimentação etc. E já devo ter falado sobre um dia em que me desesperei, ao perceber que uma linda roupa que a mamãe estava fazendo para eu usar numa das minhas audições de piano não ficava em mim tão maravilhosa como no corpo da manequim da revista de onde o modelo e o molde foram copiados.

E estou falando de uma época em que não havia esta loucura que existe hoje em dia, das mulheres desejarem a todo custo ter o mesmo corpo das modelos/manequins, eu lembro que ficava muito claro para a maior parte que 'aquilo era corpo de manequim' e não de gente normal. E muitas manequins famosas tinham corpos magros, mas harmoniosos, um ar saudável. Copiava-se o estilo, o cabelo... Veruska ditava moda nos anos 60. Depois apareceu uma inglesinha de traços delicados, olhos grandes, bonitinha mas muito magra, era um verdadeiro cabide para roupa.
Era a TWIGGY. Lembro que muita gente passou a usar o cabelo curtinho dela, que virou uma febre! Ali começou este negócio de ter que ser uma vareta, sabiam? Mas nem todo mundo ia nesta onda de pagar qualquer preço p/ ter o corpo delas. Não era, ainda, difundida a idéia, quase obsessão, de que para ser bonita, gostosa e elegante a mulher teria que se enquadrar perfeitamente nas medidas X, Y, Z e no manequim 36. Uma coisa era uma coisa, outra coisa era outra coisa.

O interessante é que os padrões foram mudando, ficando cada vez mais absurdos e inalcançáveis pelas pessoas normais. Esta coisa de querer ficar idêntico a fulano e siclano, sem sequer parar para ver que não é uma questão apenas de peso x altura, que as estruturas diferenciam de um para outro, que há muito mais coisa a ser considerada e que cada um de nós é único...

Bom, o fato é que hoje em dia temos uma ditadura da beleza e da forma física que vem causando mais estragos do que benefícios, em muitas pessoas. E temos, em contraponto, um aumento assustador, também, de pessoas obesas em todo canto. Incluindo crianças e até mesmo bebês. E eu sou de um tempo em que obesidade, para mim, era uma doença. Na minha cabecinha desinformada até então, estar balofo era uma coisa e ser obeso era outra. Eu não era uma coisa nem outra. E, com o tempo, mudando para pior os meus hábitos alimentares e me tornando mais sedentária, fui ficando cheinha, cheiona, gordinha, gorda, balofa. E como balofa fui me vendo aumentar cada vez mais, sem agir adequadamente para mudar o quadro.

Quando agia, era do jeito torto, também já contei aqui muitas vezes. Tratamentos perigosos, remédios de todo tipo, incluindo injeções 'sabe Deus de que'. Dietas malucas, da moda, simpatias e tudo mais. Enxergar o que precisava ser mudado e aceitar mudar era outra história. Talvez eu achasse que era coisa para obesos. Eu não era obesa tá? Na minha cabeça tão inteligente para tanta coisa, eu permitia ser burrinha para esta constatação: obesidade era doença, eu não estava doente e sim gorda. Aliás, balofa. E fui balofando, balofando...

Um dia, em 1981, eu no Canecão com a minha mãe e uns colegas dela de trabalho, onde fomos assistir a um show. Eu estava bem fora do peso, mas ainda muito longe do que nem sabia que poderia chegar em termos de má forma física. Conversando com um colega dela, que era bem legalzinho, um rapaz gay super simpático, alegre e talentoso, em algum momento do papo eu disse algo como "eu que estou gordinha..." e ele me interrompeu rapidamente, quase pulando da cadeira e, bem afetado e olhos arregalados disse: "Gordinha? Você está é obesa!!!!".

Fiquei sem graça, e eu nunca fui de ficar sem graça à toa. Achei muito indelicado da parte dele. Afinal, eu estava balofinha e não obesa. Era como eu pensava. E como tenho a foto daquela noite (infelizmente não estou achando agora, para scanear e mostrar), já a olhei muitas vezes e disse a mim mesma: "Ele nem tem idéia de que aquilo era só o começo!" e mais: ele estava certo. Eu estava obesa, ainda no grau menos elevado, mas estava. Obesa antes de tudo na cabeça. Pensava e agia como obesa. Portanto...

O fato é que eu só fui me convencer de que estava obesa e, mais do que isto, obesa mórbida, quando já estava com mais de 130kg. Aí eu fugia desta realidade, porque eu tinha medo de estar obesa. Não gostava de estar balofa, mas obesa? Era demais para mim. Vá entender uma cabeça assim...rs E ainda por cima mórbida? Medo. Pavor. Pensava que gordo não morria de gordura, mas que obeso morria de obesidade.

Foi assim que eu me assustei, para valer. Mas as minhas taxas eram ótimas, meus exames sempre agradavam os médicos e eu ouvia feliz deles que eu era um fenômeno, por me manter tão bem apesar do peso. Um deles, cardiologista que conduziu o meu checkup quando eu fiz 40 anos (1996) me falou: 'Agora, comemore isto se cuidando para continuar assim, celebre a vida preservando-a, para continuar daqui para a frente com estas taxas tão boas!". E eu comecei, na época, a me cuidar um pouco melhor. Já vinha há tempos tratando da cabeça, do auto-conhecimento, sintonizando com os meus 'botões' e entendendo o porque de tantas coisas, já estava há uns 5 anos trabalhando a mente de uma forma melhorzinha. Me preparando para o que viria pela frente.

O fato de nunca ter tido complexos, de jamais ter me escondido por estar tão gorda, de não ter me privado de me divertir, sair, curtir praia, dançar, paquerar etc. me ajudava muito por um lado. Mas contribuiu, hoje eu sei, para que eu empurrasse com a barriga (cada vez maior e mais caída) a mudança de atitude. Afinal, se eu me gostava de qualquer jeito, porque pressa em virar o jogo? Mas eu gostava de mim independentemente do meu corpo/peso e não por estar daquele jeito. Eu não poderia dizer que era bom usar um jeans manequim 64 (sessenta e quatro, sim), que era uma delícia quebrar 9 entre 10 cadeiras plásticas, mesmo as mais resistentes, que era ótimo não poder abrir a bandejinha de refeições do avião e melhor ainda ter que pedir um extensor de cinto de segurança à comissária de bordo, por exemplo!
Claro que eu não achava o máximo não poder aproveitar liquidações de roupas, tentar vestir uma peça XXG e ela não me passar pelos ombros, usar meia calça tamanho máximo e ela não passar dos meus quadris e ali ela ficava, enrolada, apertada, me assando toda, por baixo da calcinha que tinha a função, também, de 'segurar' a meia calça enrolada que me partia toda, eu que sei! Não seria louca de dizer que apreciava muito os olhares que recebia, as cutucadas que percebia que uma pessoa dava na outra, vindo pela rua, ao me ver, mostrando-me como se eu fosse um ET. Um ET bem bonitinho, sorridente, etc. Mas um ET que eu não era, eu só estava obesa (sim, eu já sabia disto, finalmente).

Eu tinha pena da manicure quando fazia meus pés no salão, porque se não houvesse lá aquele suporte para a perna, o peso era tremendo e a criatura ficava cheia de dor nas suas pernas por causa das minhas. Então, para poupar a profissional, ficava eu fazendo uma força danada para minha perna não pesar na dela. Consideração, claro! Como esquecer (já contei aqui várias vezes) de quando entalei na roleta do ônibus e o cobrador, com a ajuda de mais 2 homens, não conseguia fazer a danada girar e eu ali, apertada, suando, desesperada? Até que concluíram que teriam que levar o ônibus para a garagem para que a roleta fosse serrada, aí eu me apavorei, pensando no mico que seria aquilo! Acho que de tanto susto e suor eu acabei escorregando um pouco mais, a força dos homens e o meu apavoramento fizeram a roleta mexer e eu saí de lá, ainda bem.

Não, nada disto é agradável. Eu ria depois contando às pessoas, eu rio hoje falando, mas não era tão simples assim. O fato é que sempre tive jogo de cintura para a vida, então eu superava emocionalmente, aprendia a lidar com as coisas, já que fisicamente não havia condições. O fato é que isto mudou. Eu resolvi dar um basta e assim, desde 2003, entrei numa estrada que não tem volta. Uma estrada que não me livrou somente das coisas que citei aí em cima e de muitas, muitas outras que se eu fosse listar, este post seria muito maior do que já está sendo (pra variar..rs).

Mas todas as dificuldades da vida prática ainda não eram piores do que o risco que eu corria, por conta daquela situação. As taxas continuaram ótimas, mas até quando? E a pressão arterial sempre tão alta, já diagnosticada várias vezes como consequência, unicamente, da obesidade e do sedentarismo? Valia a pena continuar pagando para ver? Será que mudar hábitos era algo tão mais difícil do que ter que me capacitar, cada dia mais, a contornar os entraves que o meu tamanho provocava?

Há quem diga que é difícil emagrecer, que é difícil se disciplinar, que é difícil ter controle, que é difícil mudar um comportamento que já carrega há anos. Fácil, não é mesmo. Mas a dificuldade é do tamanho que a gente vê. Porque quando a gente cisma que vai fazer uma coisa, mesmo que ela nos tome tempo e esforço, a gente faz sim. O que faz com que as coisas difíceis se tornem possíveis é a motivação que temos para enfrentar de frente e assumir um compromisso de mudança. E a motivação vem de dentro, vem de fora, a gente tem que usar tudo para alimentá-la, ela sim pode ficar obesa. Listando tudo que não está legal e que queremos mudar, sabendo o porque de ser importante esta mudança e tendo uma boa noção do que a mudança vai realmente nos trazer, de forma realista,a gente para e pensa "é... quero isto para mim".


Eu quis isto para mim, por isso meti a cara e meto até hoje. Porque com tudo que já aprendi e vivi, ainda há muito que melhorar. Tenho pesinho extra que voltou para mandar embora. Tem épocas que vai macio... tem épocas que é uma coisa de doido, vou aos solavancos. Uma hora para emagrecer, outra hora para manter, outra para não ultrapassar um certo limite de aumento de peso, outra para reverter de novo, o fato é que eu estou CASADA para sempre com um processo que só me traz benefícios. Que me tirou de um risco maior de problemas de saúde, que me trouxe mais mobilidade, mais facilidades, mais beleza, mais satisfação comigo mesma, mais orgulho do tanto que posso fazer por mim. E que está me ajudando a ajudar a quem também está na estrada e nisto incluo minha família.

Não busquei e não busco a imagem de ninguém, a não ser a melhor imagem possível para mim mesma, no meu contexto, nas minhas particularidades. O meu peso, o meu manequim, que para muita gente é grande demais, para mim é bacana. É normal. É comprado na feirinha, na lojinha, na lojona, na liquidação ou no preço caro, mas não mais em lojas especializadas em tamanhos GGHIJKL.... E uma saúde que não tem preço. Pelo menos, se ela falhar, não terá sido por negligência minha. Não terá sido por ter me apegado mais a prazeres que terminam tão logo a gente engole do que ao prazer de saber que me dou um trato muito mais responsável, mais carinhoso, mais digno. Do jeitinho que mereço.

Beijos em todos, vamos em frente, tá? SEMPRE!

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